Pronto para sair do papel

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Alunos da ETFG-BH criam plano de negócio que gera resultados econômicos e ambientais em uma empresa real

Pronto para sair do papel

A receita para formar jovens empreendedores de visão é simples. Separe os ingredientes conhecimento em gestão, aplicação prática, pesquisa, inovação, motivação e criatividade, misture-os bem e coloque-os na elaboração de um plano de negócios. Pronto. Basta esperar crescer. O resultado são projetos de “gente grande”, que só precisam de capital para ser tornarem realidade.

Essa tem sido a fórmula adotada pela Escola Técnica de Formação Gerencial de Belo Horizonte (ETFG-BH) do Sebrae-MG e que tem gerado bons frutos. Entre eles, está o projeto Composita, nome provisório do plano de negócios desenvolvido pelos alunos Gabriel de Godoy Fonseca Coxir, Vinícius Braga e Silva e Mateus Rodrigues Oliveira, todos com 17 anos.

A iniciativa, direcionada à produção e comercialização do adubo de húmus de minhoca, proveniente da compostagem de lixo orgânico, foi um dos destaques, em 2012, no Projeto Vitrine. Os alunos também conquistaram o segundo lugar na 2ª edição do Concurso Jovem Empresário, promovido pela Faculdade IBS, certificada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), aos estudantes do Ensino Médio, que trabalharam o tema Ideias Inovadoras. Esse reconhecimento rendeu ao grupo o prêmio de R$ 2 mil, que já tem destino certo: ajudar a tirar do papel a futura empresa.

De acordo com Gabriel Coxir, o plano de negócios surgiu como um trabalho de conclusão do curso na ETFG-BH, realizado pelo Projeto Vitrine, que consiste em criar um empreendimento no papel. “Faz parte da grade curricular, e a última etapa é a avaliação técnica de uma banca composta por professores e empresários, que dão nota ao trabalho. Tiramos 85 em 100. Um bom resultado e um incentivo para a nossa empresa se tornar realidade”, conta com orgulho.

Na avaliação do professor de Marketing e orientador do Vitrine, Elber Sales, esta motivação demonstra que o objetivo da metodologia de ensino adotada pela ETFG-BH tem sido alcançado. Ele explica que os alunos possuem duas opções: escrevem o trabalho de escola ou elaboram o projeto de uma empresa fictícia com condições de se tornar real. “Para nossa satisfação, os jovens estão mostrando que desejam ir além da área acadêmica. Essa postura é um sinal de que estamos obtendo um bom resultado na formação de futuros empreendedores”, reflete Elber Sales.

BEM-PLANEJADO E SUSTENTÁVEL | O projeto Composita consiste em uma empresa de produção e comercialização do adubo de húmus de minhoca, adquirido por meio de compostagem de lixo orgânico com a utilização de minhocas da espécie Vermelha da Califórnia. A definição por esta escolha ocorreu pela possibilidade de se obter uma matéria- prima abundante e de baixo custo, cujo nome técnico é resíduo sólido orgânico urbano.

A grande oportunidade do negócio foi identificada nas Centrais de Abastecimento de Minas Gerais S/A (Ceasa Minas), onde são descartadas cerca de 1.200 toneladas de lixo orgânico por mês, ao custo de R$ 52 por tonelada, que recebeu dos estudantes uma proposta de parceria para o fornecimento desse insumo. “Para que o descarte seja feito adequadamente, em aterro sanitário, sem incluir os custos de logística, gera-se o gasto mensal de R$ 62 mil”, exemplifica Vinícius Braga e Silva. Pelo plano de negócios dos alunos, a Ceasa passaria a pagar R$ 5 mil por mês para a Composita recolher o volume dos descartes. A parceria também incluiria a disponibilização de um espaço na Ceasa para a venda de adubo aos produtores de hortaliças, o público-alvo do negócio.

Segundo o estudante, esse valor pago pela Ceasa seria suficiente para cobrir os custos com a logística de recolhimento do insumo e de distribuição do produto final, gerando economia no processo de produção e agregando competitividade ao adubo, que chegaria ao mercado a um preço mais atrativo. “O mesmo caminhão que vai recolher o lixo também irá entregar nosso produto no local de venda. Pelos nossos cálculos, o preço do adubo sairia a R$ 0,42 o quilo, quase a metade do preço do nosso principal concorrente, que é o adubo de esterco, vendido a R$ 0,80 o quilo”, conta Vinícius.

O negócio é inteligente e sustentável. Além de reduzir os custos e os impactos ambientais da Ceasa e agregar valor a sua imagem, o projeto também gera economia para os produtores de hortaliças. “O mesmo frete que faz a entrega das mercadorias deles na Ceasa seria utilizado para transportar o adubo para as suas propriedades”, destaca Mateus Oliveira.

Para o professor Elber Sales, a soma de planejamento, sustentabilidade, inovação, criatividade e rentabilidade é mais uma prova de que os alunos estão absorvendo bem os princípios da gestão moderna abordados em sala de aula. “Incentivamos os estudantes a buscar soluções sustentáveis. O aproveitamento do lixo, por exemplo, esconde muitas oportunidades a serem descobertas por empreendedores com criatividade e visão inovadora.” Ele acrescenta que os criadores do Composita identificaram um mercado potencial e adequaram o negócio e o produto às necessidades dos fornecedores, dos consumidores e da própria empresa, de maneira econômica, ambiental e socialmente eficiente.

NEGÓCIO LAPIDADO E PROMISSOR | Com o fornecedor já definido, o grupo partiu para a pesquisa de campo por meio de visitas ao Zoológico de Belo Horizonte, ao Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e à Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG). No primeiro, conheceram um tipo de compostagem que utiliza somente matéria animal e que é similar ao processo que vão utilizar, que mistura insumo orgânico e animal.

“No IMA, o técnico nos mostrou a eficiência de cada um dos três tipos de adubo orgânico existentes. O de compostagem comum tem grau de eficiência de 80; o de esterco, nosso principal concorrente, de 100. Já o nosso, de 120”, diz Gabriel Coxir. Ele detalha que o húmus de minhoca é considerado de maior qualidade porque reestrutura o solo, fornecendo mais nutrientes, o que pode dispensar a necessidade de rotação de culturas, além de ter um custo menor.

Com as informações mercadológicas colhidas na Emater-MG, os alunos começaram a planejar os detalhes da empresa para apresentar no Projeto Vitrine. A formatação do produto e as oportunidades de comercialização também foram desenhadas. O adubo será distribuído no varejo, como supermercados e estabelecimentos do setor de construção civil e bricolagem, em embalagens de 2 a 60 quilos. Já no atacado, como na Ceasa, será disponibilizado em pacotes de 60 quilos ou caminhão fechado. O valor do produto pode variar conforme o local de venda e a quantidade. “Utilizamos o cálculo CUP, que significa Custo Unitário por Produção, ou seja, por quilo. Multiplicamos pelo Markup, que seriam os impostos mais o lucro, e chegamos ao preço de venda”, ensina Gabriel Coxir.

A implementação da empresa se tornou uma meta para os três estudantes. Eles pretendem montar uma sociedade, mas ainda não sabem se irão abrir para investidores ou buscar linhas de crédito. “O certo é que vamos tirar esse projeto do papel. O investimento inicial é de R$ 532 mil e, conforme nosso estudo de viabilidade, estimamos um retorno em 2 anos e 7 meses.” No planejamento da empresa e na sua futura implementação e gestão, além dos conhecimentos teóricos, o grupo levará na bagagem valores também disseminados pela ETFG-BH, como proatividade, visão empreendedora, senso de oportunidade e dedicação. “Essa experiência nos ajudou a desenvolver uma atitude empreendedora e uma melhor visão de mercado. Agora a gente sabe como começar”, conclui o estudante.

O Projeto Vitrine

O Projeto Vitrine da ETFG-BH consiste na última etapa do curso. Trata-se da formulação de um plano de negócios completo e real, que abrange planejamento estratégico, organizacional, financeiro, operacional, tributário, documental, de recursos humanos, marketing, mercado, produto, logística, entre outros itens. O trabalho começa no 2º ano e se estende até o final do 3º. Para isso, os estudantes formam grupos de até quatro pessoas.

Além da pesquisa teórica, da aplicação de conceitos técnicos de gestão aprendidos em sala de aula, os alunos fazem pesquisas de campo, estudos de viabilidade mercadológica, econômica e financeira e analisam aspectos como concorrência, fornecedores e demanda. Para Elber Sales, quando eles vão para a rua ouvir o mercado, conhecem de perto a realidade e deparam com situações adversas que fazem parte do cotidiano dos empresários. “Escorregar, levantar, saber lidar com os obstáculos e os desafios do mercado real, tudo é importante para o amadurecimento desses estudantes”, pontua.

No encerramento do Projeto, o plano de negócios é apresentado para uma banca formada por professores da ETFG-BH e empresários, que avaliam, oferecem sugestões de melhorias e definem uma nota para cada grupo. O coordenador frisa que “o objetivo é proporcionar vivência empresarial, troca de experiências com outros empreendedores e prática gerencial, de forma calculada e bem-planejada, para que a empresa possa existir efetivamente”.

Fonte: “Pronto para sair do papel.” Revista Passo a Passo Nº 143 Dezembro de 2012 e Janeiro de 2013: pp. 12-15

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